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12.8.12

#100Camillo XXXVI: Meu pai


Cresci vendo-o no árduo sacrifício
De prover nosso honesto e pobre lar,
Vendo-o a amar a pobreza, a odiar o vício;
Vendo-o a sofrer sem nunca blasfemar.

Se a vida o bem lhe paga com o suplício,
(Que a ingratidão da vida não tem par),
Ele, de ódios perversos sem resquício,
Só possui alma para perdoar.

É dele que me vem essa ternura
Com que amo o pobre e a alheia dor contemplo.
E esse estóico desdém pela amargura...

Pai, meu altar, meu ídolo, meu templo,
Deste-me tudo, dando-me a ventura
Do tesouro maior do teu exemplo!... 

4.8.12

#100Camillo XXXV: Soneto XX


À memória de Laudionor Brasil

Nas horas de desânimo e desgosto,
Sinto essa mão macia, carinhosa,
Maternal, que me afoga as mãos e o rosto,
Perfumada de sândalo e de rosa.

Se me ponha a cismar, o sol já posto,
Exausto dessa via dolorosa,
À cabeça cansada dá-me encosto
E o suor me enxuga a doce mão piedosa.

Tanto falei das mãos nos meus poemas!
Agora, esta me vem mostrar estrelas,
- No manto azul do céu doiradas gemas, -

Num gesto de carinho e de piedade,
Pura entre as puras, bela entre as mais belas,
A MÃO NEVADA E FRIA DA SAUDADE... 

28.7.12

#100Camillo XXXIV: Depois que vieste


Nunca mais a verei. Nunca mais. Quero
Esquecê-la de todo e hei de esquecê-la...
Pois não é seu amor que me traz pela
Estrada do infortuno como Ashvéro?

Essa tortura em que me desespero,
Se vem do mal de amar, porque temê-la?...
Esqueci-a... Apaguei aquela estrela
Que era o meu grande amor, grande e sincero.

Vivi sem mágoas... reposei no seio
Da renúncia... Hoje, voltas, flor humana,
Trazendo sonhos que eu deixei dispersos...

E, hoje, ciúmo, e sofro, e choro, e anseio,
Vendo perdido todo meu nirvana,
A alma desfeita em lágrimas e versos...

21.7.12

#100Camillo XXXIII: O Poeta Escrevendo


Solidão uma conversa! eu estou é no meio do mundo.
De que serve trancar a porta?
De que serve botar as mãos no ouvido?
De que serve fazer papel de surdo que não quer ouvir?
Gritos de homens na rua entram, apesar de tudo,
Uivos de seviciados entram, apesar de tudo.
Solidão uma conversa! eu estou é no meio do mundo.

Os enucos estão fazendo flores nas torres de marfim,
Mas eu estou é no meio do mundo.

O rumor das ruas confunde-se ao ritmo do teclado da máquina.
Metralhadoras escrevem poemas no teclado da máquina.
Cavalos estão batendo patas no teclado da máquina.
Gente lutando,
Suando,
Amando, nas cinco partes do mundo.

Quem pode escrever poemas de solidão,
Se portas trancadas nada valem,
Se mãos nos ouvidos nada valem,
Se, fazer o papel do surdo que não quer ouvir, nada vale,
Se os olhos dos morimbundos ficam, no alto, iluminando as páginas,
Se mãos alvas vem acender o cigarro, devagarinho,
Se o rumor da rua vem fazer coro ao ritmo do teclado da máquina?
Solidão uma conversa! eu estou é no meio do mundo.

14.7.12

#100Camillo XXXII: Minhas mãos


Nas minhas mãos que eu vi sempre vazias
Alguém, um dia, leu a minha sorte:
Lutarás; sofrerás até a morte.
Bem dizem tuas mãos brancas e frias.

Eis começado um drama de agonias.
E as minhas mãos, as minhas mãos de um forte,
Mil grilhões rebentaram num transporte,
Jogaram pedra contra as tiranias.

Nunca, inúteis, inermes, vis, pararam.
Se abençoaram com a ternura infinda,
Foram tremendas quando castigaram.

E haveis de vê-las, para o meu conforto,
Hirtas, crispadas sobre o peito e ainda
Esmagando ideais num peito morto... 

7.7.12

#100Camillo XXXI: Não estou só


Não estou só, porque o piano invisível
Está repetindo a valsa clássica daquela noite, há muito tempo.

Não estou só, porque há palavras que foram ditas e não morreram de todo.

Não estou só, porque as amadas mortas ainda estão falando ao meu ouvido;
Mocinhas vestidas de branco das cidadezinhas tranquilas estão sorrindo para mim;
Comovendo minha estátua e o retrato em cima da mesa.

Não estou só, porque os olhos do retrato estão perdidos no passado e no presente.

A sala é pequena. O mundo parou. Tudo parou. Ainda assim não estou só,
Porque a noite chora sangue no pingo da estrela,
Parado, no rasgão da janela que dá para o mundo. 

30.6.12

#100Camillo XXX: A Língua Brasileira


Nasceste a ouvir das lutas o ribombo,
Vendo flechas cruzarem-se pelo ar;
Vendo o sangue correr de tombo em tombo,
Como um rio fantástico a jorrar.

As guitarras saudosas de além-mar,
Que o mar, - gigante bom, - trouxe no lombo,
Embalaram-te. E ouviste, no quilombo,
A voz do banzo de fazer chorar.

Desses arroubos belicosos falas.
Dores alimentaram-te as raízes,
Por isso guardas, doloroso poema,

O calundu do banzo nas senzalas,
A dor do "gosto amargo de infelizes"
E o rugido guerreiro da pocema.

23.6.12

Um poema junino

Por falta d'água no Nordeste,
Plantações atingidas como numa peste
A fartura da época prejudicada
Teve verba cortada e festa cancelada

Antônio, João e Pedro festa irão ganhar
Pois a chuva há de cair para a terra molhar
Com fé e esperança, o sertanejo faz celebração
Não se aperreie não, assim que é o sertão

Vamos forrozear e festejar Gonzagão
Pois outro como ele, só na outra encarnação
Então, seja na roça ou na cidade
Escolha seu destino; espalhe felicidade

Viva o Nordeste e viva São João
Seu Luiz, lá de cima, vai pedir por gratidão
A Deus do céu: "Porque tamanha judiação?"

#100Camillo XXIX: No Trem


Há nos campos a morna paz do estio.
Trepida o trem nos trilhos, corre, avança.
Olhas do campo o manto de esperança.
Eu, milhões de aventuras fantasio.

Falo-te, após. Tu falas. Eu sorrio.
Paira em tudo um sorriso de bonança
Que vem dos teus encantos de criança
E que eu bebo com o olhar em desvario.

Morre o apito a estrugir de cerro em cerro.
Desces. Eu sigo. Minha vista turva
Só vê teu lenço a tremular... E eu penso

Que a vida é mesmo como um trem de ferro:
Passa... e deixa somente, em cada curva,
Tremulando, a saudade, como um lenço...

20.6.12

Casa do Cordel se destaca na Vila Junina



Os folhetos espalhados sobre a mesa e as fotos de Lampião expostas nas paredes de uma das casas de taipa montadas em frente ao Memorial do Forró, na praça Tancredo Neves, têm chamado atenção de quem visita a vila junina.

Presente no Forró Pé-de-Serra do Periperi desde a edição de 2009, a Casa do Cordel, organizada pelo professor Antonio Andrade, é um dos destaques da vila, atraindo de crianças aos mais idosos. A exposição conta com centenas de títulos da literatura de cordel, alguns escritos há séculos, entre eles estão os folhetos que inspiraram Ariano Suassuna a escrever o Auto da Compadecida, os que homenageiam ícones nordestinos como Lampião, Padre Cícero e Luiz Gonzaga, e também personagens históricos, como Che Guevara, Zumbi dos Palmares, Tiradentes e Anita Garibaldi.


As obras são de antigos e contemporâneos poetas populares do Nordeste brasileiro, de Leandro Gomes de Barros a Rouxinol do Rinaré. As histórias representam fatos reais, contam atos heróicos, trapalhadas ou confusões, mas também navegam no campo do imaginário, como a história fascinante do Pavão Misterioso.

Quem visita a Casa do Cordel também encontra dezenas de fotos do cangaço - principalmente de Virgulino Ferreira e seus cabras, xilogravuras - as típicas ilustrações dos folhetos, peças de artesanato talhadas em carnaúba, fotos do poeta matuto Patativa do Assaré e do lendário, porém real, Seu Lunga, um painel em homenagem a Luiz Gonzaga, livros sobre o cangaço e outros objetos típicos, além de uma oportunidade de bater um papo sobre a cultura popular nordestina e sair de lá com um tantinho de tanta riqueza.


Todo o acervo da Casa do Cordel pertence ao professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Antonio Andrade, colecionador de cordéis, pesquisador do cangaço e da cultura nordestina, responsável pelo blog Luz de Fifó (luzdefifo.blogspot.com) e militante propagador da nossa cultura popular.

CASA DO CORDEL
Local: Vila Junina, na Praça Tancredo Neves.
Aberta para visitação até o dia 24 de junho, a partir das 18 horas.

16.6.12

#100Camillo XXVIII: O Coro dos Escravos


Meus irmãos, que é dos cantos dos poetas
Que comparavam as chicotadas que sibilavam em nossos dorsos
Ao vento da noite que arrepia a cabeleira das árvores?

Meus irmãos, que é das vozes dos revolucionários
Que pediam pão para os nossos filhos
Enquanto os maus nos atiravam pedras?
Meus irmãos, que é do sangue dos mártires,
Que jorrava no chão como um rio vermelho,
Para matar a nossa sede?

Como queimam meus pulsos estas algemas.
Meus irmãos, meus irmãos!

- Mas somente o eco responde à voz perdida:
... "Irmãos... irmãos... irmãos..."

9.6.12

#100Camillo XXVII: Milagre da Saudade



Nunca mais eu te vi. Meus olhos nunca
Mais se pousaram sobre os teus. Entanto
Inda a saudade- essa rendeira - tronca
Os fios da minha sorte em fios de pranto

Nunca mais eu te vi. Fere-me tanto
Da negra ausência a garra negra e adunca...
Não mais me deslumbrei no teu encanto...
De dôr a vida a minha estrada junca...

Nada soubeste. Mas, na minha vida,
Foste o maior romance de martírio,
A novela mais triste e dolorida...

E, hoje, que a solidão minh'alma invade,
Ainda te vejo, pura como um lírio,
Alva, etérea. Nimbada de saudade...

2.6.12

#100Camillo XXVI: Soneto da Distância


Rosa morena, flor esplêndida da graça
Olhos negros de turca e perfil de cigana,
Emprestas teu fulgor à placidez da Praça.
Vejo-te. Nasce o amor que ainda hoje nos irmana.

Tu, vestida de noiva, aos pés do altar. Dimana
Das flores em redor o perfume que esvoaça.
A lágrima feliz teu doce olhar empana.
Beijo o sorriso que em teu lábio em flor perpassa.

Junto ao berço onde dorme nosso filho, enquanto
Escuto tua voz na canção de acalanto
Esqueço o mundo, esqueço o mal, esqueço a dor...

Hoje, longe de ti, penso ou sonho talvez:
Se morrer de saudade é viver outra vez.
Estou vivendo o que vivemos, meu amor... 

26.5.12

#100Camillo XXV: Renúncia


Vem esta paz que o espírito me invade
Da quietação de nada desejar.
Bastam-me ao meu viver esta saudade.
Árvores, sol, estrelas, céu, luar.

Renúncia, és tudo... Impassibilidade.
Deste-me tudo o que eu quisera achar!
Lição dos poemas de Ishopanishad,
Foi-se, com tua vinda, o meu pesar!

Sofri no mundo porque muito quis.
Glórias falazes já não quero tê-las,
E, hoje, que não as quero, sou feliz,

Tendo, na calma estóica de um baul,
Saudade, luar, árvores, sol, estrelas,
E o côncavo dossel do céu azul... 

19.5.12

#100Camillo XXIV: A Koockaburra


Dizem que a Koockaburra, uma ave australiana,
Com as garras e o bico, em luta encarniçada,
Toda serpente que lhe vem ao alcance esgana,
Do bote sem temer a pérfida cilada.

E no bico levando a cobra inanimada,
Voa e mostra o troféu de que tanto se ufana;
E canta. A sua voz é uma alta gargalhada
De glória e de prazer, bem forte e muito humana.

O poeta é bem assim. Com a clava do verso,
Abate o mau; eleva o justo; ata o perverso
Da eterna execração no cadafalso atroz.

Paira no alto, depois. E, da tuba impoluta,
Tira o hino ao dever cumprido, à glória, à luta,
Sem que o tempo consuma o clamor dessa voz...

13.5.12

Oração pelas mães


Agradeço, ó Deus, pela mãe que me deste!
sua presença serena inspira-me confiança;
seu serviço constante ensina-me a amar;
sua vivência simples desperta-me para a fé;
seu olhar profundo inspira-me bondade;
sua ternura leva-me a acolher;
seu semblante tranquilo fala-me
do teu rosto materno, ó Deus!
Neste dia a ela dedicado o Universo inteiro
Canta, Senhor, as maravilhas
Que operaste nesta criatura tão bonita:
Obra-prima de tuas mãos.
Acompanha, Senhor,
minha mãe nas alegrias e nas lágrimas,
Nos trabalhos e nas preocupações.
E, quando suas forças diminuírem
e a idade avançar,
que redobre a minha ternura
para que a solidão não a possa alcançar.
Abençoa, ó Deus, minha mãe!
Abençoa também todas as mães!

12.5.12

#100Camillo XXIII: Filho pródigo



Vai, coração. O amor é uma loucura.
O mundo te sorri. Chamam-te os fados.
Fulge aos teus olhos, mais o sol na altura
Têm ouro na garganta os namorados.

Ouve a voz interior que te murmura
Cantos meigos de amores repassados.
E eu, vendo-te partir para a aventura,
Fico de alma a ansiar, de olhos molhados...

Vai, coração. E eu, ficarei triste,
Olhos na estrada em que tu te sumiste,
Pois sei que, um dia, pela mesma estrada,

Tu voltarás, na mão do desconforto,
Desfigurado, velho, quase morto,
Sem fé, sem crença, sem amor, sem nada...

5.5.12

#100Camillo XXII: Última cena da vida boêmia



Onde estais, sombras vaporosas
Que eu tanto quis e amei? - Mimi
Das finas mãos brancas, nervosas,
Do seio em flor onde eu dormi?

Da tua boca como as rosas
Quantos mil beijos eu sorvi?
Musette, em noites silenciosas,
Que hinos de amor cantaste aqui!

Mas... ouço a voz de mandolina...
Que valsa é essa, aérea e divina,
Que enche de sons a noite atroz?...

É a Morte - a amante derradeira
Que, à luz mortiça da lareira,
Corre a atender a minha voz!

28.4.12

#100Camillo XXI: Casa Velha


Velha ruína de casa de fazenda,
Exposta ao sol, à chuva, ao frio, ao luar,
Um passado de dor se me desvenda,
Se em ti descanso o meu sentido olhar.

Penso, ao te ver assim, velha vivenda
Numa vida que nunca há de voltar.
Ouço um gemido triste de moenda
Que a ilusão geme para me enganar.

E ouço velhas correntes vagarosas,
Arrastadas por almas de cativos;
Ouço gemidos tétricos de dor

De mães, nas despedidas dolorosas;
De amantes, nos momentos pungitivos
Em que nasce a saudade e morre o amor...

23.4.12

Minha louvação a São Jorge


Cavaleiro, guardião,
Protetor, soldado,
Domador de dragão,
Livrai-me do mal.
Conceda-me graças,
Cubra-me com suas armas
E sua força paternal.
Dono de espadas e lanças,
Escudos, facas e correntes,
Fortalecei-me de esperanças
E coloque-se à minha frente
Para que inimigos não me alcancem,
Nas batalhas e lutas do dia-a-dia,
Abra meus caminhos, sempre.