7.4.07

Vá lá vê, ó pai



Saí do cinema e no ponto de ônibus, em frente ao shopping, três meninos brincavam àquela hora na rua. Acho que não eram meninos de rua, estavam à espera de um ônibus também. Na certa, a mãe, ou as mães, estavam preocupadas e à espera deles. As brincadeiras incomodavam algumas mulheres que estavam no ponto, eles faziam de conta que nem era com eles. Já dento do ônibus, um tempo depois, olhando pela janela, vi em um bar uma mulher brigando, aos tabefes, com um homem, “discussão besta”, imaginei, pois as pessoas próximas assistiam entusiasmadas rindo da situação.

Aquelas duas cenas não teriam nada de mais. Fazia parte do contexto: Vitória da Conquista, cidade do interior e do sertão da Bahia, comecinho do Nordeste e, lógico, um campo da desigualdade social e da entusiasmada alegria, afinal, aqui também é Brasil. Mas as cenas me chamaram atenção porque o filme que eu havia acabado de ver tinha esse mesmo contexto e, mais especificamente, essas cenas. Ó Paí Ó, longa produzido na Bahia sob a direção de Monique Gardenberg, é um verdadeiro retrato que se estende por quatro dimensões: Salvador, Bahia, Nordeste e Brasil. Fiz questão de identificar esses pontos por não limitar, como faz a crítica, ao dizer que os filmes feito na Bahia são “a cara da Bahia”. Uma das idéias generalizadas que a mídia nos passa.

O filme é a adaptação da peça de teatro de mesmo nome do Bando Olodum, onde o ator Lázaro Ramos iniciou sua carreira. Dono do personagem principal ele interpreta, muito bem – como sempre, o pintor e compositor Roque, que luta pelo sucesso. O Bando Olodum também integra o elenco, com alguns “desconhecidos”, mas não inexperientes quanto, eles dão um banho de interpretação em muito atorzinho global. A Luciana Souza, que interpreta a personagem Joana, é um dos exemplos. Para quem quer ver um rostinho conhecido, tem a participação do Stênio Garcia (Seu Jerônimo) e também o Wagner Moura (Boca).

Na história um cortiço, o último dia de carnaval e a falta d’água logo nesse dia. Ao fundo, as ladeiras e as velhas casas do Pelourinho. Há uma cena que é impossível não se lembrar de Dona Flor e Seus Dois Maridos, o grupo de homens dançando e cantando numa ladeira do Pelô, aquecendo para descer para a avenida. Todos os estereótipos do soteropolitano dividem o mesmo espaço, geram uma baianidade exagerada. Gírias, xingamentos e costumes se misturam ao entusiasmo, às dificuldades e às espertezas. Outra característica, não esquecida, a cordialidade do bom baiano, que briga, bebe, discute, mas está sempre pronto para estender a mão.

Salvador e seu povo são as principais representações do filme. As gírias e o modo espontâneo são bem característicos da região metropolitana da Bahia e do recôncavo, a simples forma que se diz um “porra”, por exemplo. A gíria que dá título ao filme não é tão comum na Bahia, o “olhe para isso, olhe” reduzido, é mesmo coisa de soteropolitano, na boca do povo agora depois do filme.

Mas a Bahia está lá representada, também. Mais baiano que o entusiasmo, que a alegria ao levar a vida e que a força para resolver os problemas, impossível. Além da diversidade cultural, crenças, raças, estilos e gostos que compõem o balaio. Não posso esquecer outra referência: a música, o axé music ou mesmo o afoxé, dono das multidões durante o carnaval baiano. Os sons dos timbais e dos atabaques embalam o ritmo do filme e fazem parte da trilha assinada por Caetano Veloso e Davi Moraes, que conseguiram, em músicas, denunciar a típica, e conhecida por eles, baianidade.

O Nordeste e o Brasil... Bastam olhos atentos para perceber. Migrar-se, solução para nordestino que busca uma vida melhor, mas a migração hoje já não é mais para o Sul ou Sudeste, agora o destino é o exterior. O que fez a personagem da Dira Paes, Psilene, que volta para a Bahia e relata o que acontece com muita brasileira que vai para fora do Brasil, “acaba fazendo vida por lá”. Apenas pontuando outras questões: racismo, preconceito, desigualdade social e descaso político. É ou não é um retrato do Brasil? É o embasamento da crítica, excelente, por sinal. Infelizmente é a mesma crítica de muito antes.

A questão da identidade negra e do orgulho contra o racismo comove a quem, ao assistir, não esperava do Roque a resposta merecida ao Boca quando este pensa que vai ofender o pintor chamando-o de negro, a resposta: “sou negro sim, porra, qualé?! Negro não sente dor não é quando vocês bate na gente? Não chora não, porra? Negro também é de carne e osso, porra, é gente também porra!” Resposta de baiano, qualquer um ouviria quieto a tentativa de insulto, menos um baiano.

Ó Paí Ó deve ser aplaudido pela ousadia (coisa de baiano também), pois coloca em cena os estereótipos que são utilizados somente em sátiras. A identidade assumida pelos baianos do filme é de baiano mesmo. Baianos que estavam ali, em cena ou na produção. Toda a equipe é da Bahia, todo o filme foi feito na Bahia. A platéia pode até se sentir ofendida pelos exageros, mas é preciso reconhecer que todas aquelas singularidades do baiano ou do soteropolitano existem, não ao mesmo tempo e em poucas pessoas. Pode ser até difícil pra gente entender, mas é só um filme que em pouco espaço precisava representar a maneira de ser do nosso povo, era preciso ousar.

O objetivo foi alcançado. O longa tem tudo para ser sucesso, apesar de ter sido lançado junto com o filme 300, bem mais atrativo para quem adora e estar acostumado com as produções internacionais repletas de efeitos, nem precisava do Rodrigo Santoro para o brasileiro ir assistir... Mas, minha recomendação é: assista a Ó Paí Ó, é digno de recorde de público sim, apesar de um roteiro um pouco confuso, pois fiquei com a pergunta: pra quê o Roque pintou a Rosa (Emanuelle Araújo), se ela não foi pintada pra Timbalada?

3 comentários:

Rafael Carvalho disse...

Ei Chu, acabei de postar o comentario de Ó Pai, Ó la no blog, depois da uma olhada. Ótimo seu comentario sobre o filme, mas eu ainda continuo achando que a caracterização dos personagens ficou um pouco forçada, por mais que seja típico daquele povo. E vc n esquece a cena da Manuelle Araújo, ne? Ah sim, Borat ja passou no cinema sim, ha pouco tempo e so ficou uma semana em cartaz. Coisas do MovieCom. Outra, coisa, tomei a liberdade de recomendar o seu texto la no blog. Valeu Chu, boa Páscoa, abração!!!!

Rafael Carvalho disse...

Eu acabei acrescentando mais uns detalhes no meu texto. Valeu!!

Anônimo disse...

Flagrei-me lendo o texto com o mesmo baianês do "filme". A peça deve ter sido ótima, o "filme" tá longe de ser um filme.