30.12.07

Da ilha


Cena de Cuba registrada por Daniel Kfouri, que passou dois meses no país com o repórter Sergio Kalili para edição especial da Caros Amigos de agosto/07. Ficou excelente a revista - em texto e fotos, recomendo, principalmente para quem quer conhecer de perto a heróica ilha.

29.12.07

“Tem que sair primeiro que New York Times”


Vocês acham que podem entrar em minha casa, fazer perguntas e destruir a reputação das pessoas?


A invasão da sede do Partido Democrata por cinco homens dá origem a um sistema de investigação comandado por dois jornalistas do Washington Post. O escândalo do Watergate, como o caso ficou conhecido, colocou em xeque a prática jornalística e o governo do presidente Richard Nixon. A história de 1972 virou filme em 76, baseado no livro homônimo escrito pelos próprios jornalistas, Bob Woodward e Carl Bernstein. Todos os homens do presidente, dirigido por Alan J. Pakula, ganhou quatro Oscar e ainda é uma das mais atuais aulas de jornalismo.


Com poucas informações sobre a invasão, o jornal resolve ir a fundo e logo descobre que o assunto não é mais um caso de polícia e sim de política. Os repórteres começam a alimentar uma compulsão pela pauta por acreditarem que existe muito a se descobrir. O trabalho é levado adiante como se os dois fossem detetives e não jornalistas. É a ausência de fatos e por acreditar na existência deles que a busca por informações começa a ultrapassar os limites éticos.


Mais que informações, Bob e Carl se depararam com a censura, com contradições, com os jogos dos bastidores do poder e, principalmente, com muitas dúvidas. A partir de insinuações, de acusações vazias, fontes anônimas e grandes manchetes, o jornal consegue mais detalhes que o próprio FBI sobre o caso. A investigação americana puniu os envolvidos depois que o caso, de desinteresse da maioria da população – segundo pesquisa da época, foi publicado pelo jornal várias vezes, se desenrolando a cada matéria com um novo fato.


O trabalho dos jornalistas desafiou a liberdade de imprensa, a constituição americana e o futuro do país. As entrevistas se extrapolam, os repórteres interrogam como quem colhe um depoimento policial e ainda conduzem as respostas a partir de suas suspeitas, adiantando que não revelam a fonte, “só quero que você confirme esse nome”. A sede pela informação foi alimentada pela relação mercadológica que existem nas redações (de qualquer jornal, inclusive). A pressa para publicar antes que o concorrente e o desejo para se destacar entre os colegas repórteres são dois bons e perigosos exemplos da selvageria.


O caso é uma excelente demonstração da rotina jornalística. A vaidade nas redações, o difícil reconhecimento da autonomia dos fatos, as reuniões de pauta e de fechamento do jornal, o tempo vago somente para a descontração e a complicada convivência com a humildade. O filme representa muito bem o jornalismo da época. Época em que canecas de café, cigarros e a busca por informações que não eram explícitas, nem ao menos imagináveis, dividiam o mesmo lugar.


Todos os homens do presidente nos apresenta um jornalismo que dificilmente encontraremos nos dias de hoje. As pragmáticas expostas no filme estão se perdendo devido às facilidades da tecnologia, ao relacionamento com as fontes e, mais arriscado ainda, devido à briga pelo espaço e tempo disponíveis que o jornalista dispõe para aparecer e fazer seu nome. A real função do jornalista e a ética profissional foram por água abaixo. Hoje, insinuações são fatos para uma boa manchete e não mais para uma profunda investigação.

25.12.07

O Último Discurso

(de O Grande Ditador)

"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio ... negros brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezer uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém, nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar em passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e docura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo
eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldado! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Luteis pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de

São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não

cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém, escravizam o povo.

Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao

ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai
rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos encontrando um mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da
brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos Hannah! Ergue os olhos!"

Charles Caplin

23.12.07

Boas festas

Fim de ano, festas, comemorações
e você passando aqui pelo balcão.


Nada melhor que um abraço apertado de balcão
para lhe desejar boas festas e comemorar com você!


Feliz natal e
feliz 2008 a todos
vocês
,

meus bons amigos de conversa de balcão,


Ailton Fernandes, Chuchu ou Ai - como preferir

Um porto


Estreando a coluna Imagem-nário, foto da cruz do Porto de Santa Cruz (Cândido Sales, Bahia).

Venezuelanos apostam mais na liberdade de imprensa que brasileiros


Para os venezuelanos, a imprensa tem liberdade de atuar de forma “precisa, verdadeira e imparcial”. Já os brasileiros não vêem essa liberdade na mídia nacional. Pelo menos este é o resultado de uma pesquisa encomendada pelo Serviço Mundial da BBC. Sessenta e três por cento dos venezuelanos acreditam na liberdade de imprensa local, enquanto entre os brasileiros, o índice cai para 52%. No ranking mundial de liberdade de imprensa - organizado pela Repórteres sem Fronteira (RSF) - o Brasil ficou em 84º lugar, enquanto a Venezuela está em 114º.


Como mostra a BBC Brasil, o estudo ouviu 11.344 pessoas. Todas responderam um questionário, cujo resultado foi divulgado nesta segunda-feira (10/12), como parte das comemorações dos 75 anos do Serviço Mundial da BBC.

O relatório aponta que “a percepção dos venezuelanos sobre o desempenho da mídia é consideravelmente mais positiva do que em outros países da América Latina”. Quarenta e dois por cento dos venezuelanos avaliaram como “bom” o trabalho dos órgãos de comunicação controlados pelo governo. No Brasil e no México este número é de 25%.


Primeiros lugares
A imprensa é livre para 81% dos quenianos. Já na Índia, 72% consideram que há liberdade de imprensa no país. A Nigéria ficou em terceiro lugar, com 66%. O menor índice ficou com Cingapura – 36%. A média geral obtida nos 14 países pesquisados ficou em 56%.


Os entrevistados tiveram duas opções que tratam da liberdade de imprensa e estabilidade social. O estudo apresenta duas afirmações e pede para que eles digam o que se aproxima mais de sua visão. A primeira diz que a liberdade de imprensa “para relatar as notícias de maneira verdadeira é muito importante para assegurar que se viva em uma sociedade justa, mesmo que em alguns momentos (as notícias) levem a debates desconfortáveis e efervescência social”.


Já a segunda afirma que “enquanto a liberdade de imprensa para relatar os fatos de forma verdadeira é importante, a harmonia social e a paz são mais importantes, o que em algumas vezes significa controlar o que é noticiado pelo bem comum”.


Cinqüenta e seis por cento deles marcaram a primeira afirmação, 40% a segunda e 4% não soubera ou não quiseram responder.


O relatório aponta que os que destacaram a liberdade de imprensa têm visão mais crítica sobre a isenção dos meios de comunicação. Alemães, americanos e ingleses não avaliaram tão bem o desempenho da imprensa quanto à precisão e honestidade.


A pesquisa, realizada entre 01/10 a 21/11, também compara o desempenho do trabalho os veículos de comunicação públicos e privados, a preocupação sobre a crescente concentração das empresas de comunicação e o desejo de participação da população sobre o que sai na mídia.


Publicado oficialmente no Comunique-se, em 10/12/2007


Coisas que tô fazendo


Essa é a primeira postagem da ColunaTô. É o espaço do meu blog onde você irá encontrar o que eu TÔ fazendo por esses dias para lhe servir de dica, se quiser, claro, seguir o meu exemplo.

Pra começar tô de férias e reformulando o De Balcão, pretendo mantê-lo sempre atualizado - você e o blog, rsrs!

Tô lendo as revistas Fraude nº5 (conheça a revista no site), a Caros Amigos especial de Cuba e a edição de dezembro, a piauí, a Rolling Stone e a Fórum. E os livros O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, e Mídia e Violência, de Silvia Ramos e Anabela Paiva.

Ultimamente
tô ouvindo Oswaldo Montenegro e Tom Zé, recomendo demais esses dois grandes nomes da música brasileira.

Assisti mais uma vez o filme Lisbela e o Prisioneiro e tô com o filme Todos os homens do presidente para assitir, sou um dos poucos estudantes de jornalismo que nunca viu - comento em breve aqui.

É isso, tô que tô!

15.12.07

Organizando minha revolta


“Eu seria um pouco mais feliz... Um pouco não, bastante. Aliás... Bem mais feliz se tivesse vivido os anos em que o governo brasileiro vestia-se com as fardas militares” – foi esse o meu pensamento dia desses, e resolvi achar que isso é uma verdade. Talvez a minha vontade e a minha persistência em alimentar uma ideologia de esquerda e algumas utopias estejam intimamente ligadas com esse fato.


Existe uma voz que às vezes me diz, e não diz de qualquer forma, é com alto e bom som, como quem tenta me convencer aos gritos: “deixe de ser idiota, vai fazer alguma coisa pra sua vida, otário!”. Talvez essa voz esteja querendo me mostrar que eu não preciso estar preocupado com o menino que brinca dentro do lixo a procura de comida. Talvez ela seja uma tentativa de me mostrar que a moça sem emprego é apenas uma despossuída de sorte. A voz insiste, a voz grita, e eu me faço de surdo, não me permito ouvir e continuo achando que a época da censura, do AI-5 e da perseguição seria bem mais prazerosa.


Da mesma forma, eu estaria envolvido com a luta (ou ao menos com a tentativa de lutar) pela transformação social, isso é fato, e não me intimido a admitir. Só que se fosse aquela época, ahhh... o fazer pelo coletivo, pela sociedade, o simples pensar no coletivo, carregaria outra dimensão emocional. Hoje todos se acomodaram à liberdade que dizem existir, cada um caiu na sua vidinha particular, cada um segue passos que só visam ultrapassar os passos do companheiro que caminha logo ao lado. E aquela voz... É isso que ela quer: que eu encontre uma estradinha pra seguir, deixando pra trás os meus ideais, os motivos que me fazem caminhar em torno do mundo de todos, ao qual pertenço, e não em torno do mundo que a voz diz existir, ao qual só eu pertenço.


E nessa briga, por ora, pareço distante. Volta e meia, deliro. Um passo a frente, levanto vôo. É aí que a maldita voz me puxa para a terra firme (?) – o pior é que eu vou. Me arrasta até que eu volte a pisar o chão. Fico pior, misturo tudo: a minha vidinha, suas miudezas e suas mazelas, e a minha luta, comigo mesmo e com o meu eu que carrega a responsabilidade de um esquerdista (?). É o cartão de crédito a pagar, é o filme novo em cartaz no cinema, é o tempo que fico no ônibus até chegar ao shopping, é a roupa suja pra lavar no tanque e a ração do cachorro que preciso comprar. Soma-se a tudo isso a minha rebeldia contida em minhas palavras, que juntas ao meu inconformismo se contorcem em meus pensamentos para conseguir um espaço na minha agenda imaginária.


Não fico triste quando vejo um projeto meu, ou uma simples idéia, se despedaçar, um projeto que a princípio tornaria minha vida e a de muitas pessoas um pouco melhor, segundo minhas pretensões utópicas. O que me entristece é ver que há pessoas sem perceber que a vida precisa melhorar, são aquelas pessoas que a voz arrastou para a vidinha particular (só pode ser!), pessoas que perderam ou que nunca encontraram o sentido e o significado da palavra viver, que não projetam suas vidas para viver em um mundo coletivo. Tenho esse compromisso firmado comigo mesmo: não me deixar levar por essa voz.


Carrego como verdade também que minha existência, minha humilde passagem pela Terra, tem utilidade, quase que pública, como dizem. Aliás, a de todos, afinal não é a Terra o espaço de apenas uma pessoa. Utilidade essa que tento reconhecer como uma responsabilidade social, a mesma que qualquer um deveria reconhecer: a de ser um ativista para recuperar a essência de todo ser humano que mereceu essa oportunidade que é desfrutar da vida. Eu fico meio confuso quando tento organizar minhas idéias, minhas loucuras, meus botões. As minhas listas do que vou fazer amanhã são totalmente cumpridas sempre depois de amanhã e sempre sobra algo que deixei ou que não consegui fazer porque não dependia só de mim.


Já cumpri, e muito, listas alheias. Adiantei o amanhã de muitas pessoas para hoje. E fico deixando a voz que persiste em dizer que eu devo fazer apenas pra mim de lado, ignoro-a sem a curiosidade de querer saber de onde ela vem. Pego as listas incompletas dos meus dias e refaço, volto ao passado, faço hoje o que foi pra ontem, ou para o mês passado, reorganizo, volto e revolto. Vou organizando a minha revolta. Voltas que dou sempre ao redor de um conjunto numérico repleto de interseções, conhecido como o mundo coletivo, vidas que se cruzam e que se mostram comuns por algumas partes.


Queria sim, digo outra vez, ter a sensação de está sendo perseguido, de saber que corro o risco de ficar trancado em um calabouço, de ter visto a Gal ou o Caetano daqueles tempos no palco com suas mensagens subliminares, queria não poder gritar, queria ser forçado a me calar. Sabe por quê? Minhas limitações seriam alheias, as impostas a todos e expostas claramente, e eu estaria disposto a superá-las. Aceitaria como minha obrigação não me deixar submeter a essas pressões por simples vaidade dos que mandam. Diferente disso, eu fico me impondo desafios, não enxergando as limitações a serem ultrapassadas e me aborrecendo com as limitações que se impõem sem que eu perceba.


Aí começo de novo, volto à organização inicial, das idéias, dos pensamentos, dos inconformismos. A vontade de chutar o balde e de gritar na cara de qualquer um que é nojento viver assim, vendo como todos ignoram a todos como quem diz “tá tudo muito bem...” e depois adormecem sobre a palha macia, só aumenta, só alimenta meu retorno à organização das minhas voltas, fico reorganizando voltas. Dando voltas e voltas, fico tonto, sento, deito, levanto e deliro, começo a me desorganizar, até que eu organizo a minha revolta.