22.3.08

A ovelha negra


Como admirador da música brasileira e sempre tentando conhecer mais, tô ouvindo demais a Rita Lee. Para quem busca conhecer aos artistas, principalmente os da música, conheça de fato o que eles fazem e não se limite aos conceitos emitidos por aí ou aos rótulos criados. Cada um é cada um, e por mim, Rita é muito mais que rainha do rock brazuka.

Recomendo a matéria da RolingStone BR (leia aqui) e os cds produzidos pela MTV (o Acústico, de 1998, e o Ao vivo, de 2004). Para quem quiser ir mais a fundo, mergulhe na discografia da moça , inclusive na época dos Mutantes.

Vale a pena!

16.3.08

Esse é para Glauber, mesmo!


Esse é o monumento, inacabado, que existe em Vitória da Conquista em homenagem ao filho Glauber Rocha: esquecido, abandonado e incompreenssível. Os mesmos gestos de carinho e reconhecimento que a cidade presta ao cineasta.

Foto do jornal O Planalto

O filho ausente


No último dia 14, um conquistense faria 69 anos. Esse conquistense é ignorado pela grande mídia, que não ousa exibir o diferente, o exigente e o revolucionário. Esse conquistense é desconhecido até mesmo pelos conterrâneos, por desvalorização do que é parte da nossa cultura. Esse mesmo homem, é mal interpretado, ou nem isso, talvez por tamanho talento e por toda sua ousadia.


Me refiro a Glauber Rocha, cineasta e um dos criadores do movimento que modificou todo o cinema nacional, o Cinema Novo. Um filho de Vitória da Conquista, mas que nem parece.


Em Salvador, até o dia 24 de março, no TCA, acontece a exposição Mostra Multimídia “Glauber, uma revolução baiana”. A mostra apresenta painéis, cartazes, fotografias, manuscritos e textos do artista, considerado gênio devido ao que fez e deixou para o cinema mundial.


Na abertura da exposição, na presença da mãe, Dona Lúcia Rocha, das ex-mulheres e dos filhos, foi lançado um catálogo com cerca de 70 páginas, que conta a vida de Glauber e a criação de seus principais trabalhos, contextualizando-os com momentos importantes da vida cultural, política e cinematográfica do país. Durante a mostra cinco TVs de plasmas exibirão curtas-metragens, documentários especialmente produzidos, a partir de trechos de entrevistas de Glauber e depoimentos das equipes e do elenco de seus filmes, além do lendário programa Abertura, exibido na extinta TV Tupi.


Além disso, haverá debates na Biblioteca dos Barris e a mostra “Cinema da Terra” com exibição de oito filmes em tela grande – sendo cinco do cineasta - na Sala de Arte do Museu de Arte Moderna.


Já em Vitória da Conquista, a terra natal, a data passou despercebida. Ausente, esse é o Glauber Rocha para a cidade.


Para conhecer o desconhecido, clique aqui.

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8.3.08

Cuba, Fidel e a mídia


A renúncia de Fidel foi pauta na mídia brasileira. Aliás, desde quando se afastou, Fidel e o seu estado de saúde aparecem nos jornais daqui. Só que passou de uma curiosa preocupação para a especulação exacerbada. Chegam a questionar qual o futuro de Cuba. Não sei se os caros leitores já notaram de onde “brotam” essas notícias que chegam aqui à respeito da ilha. Na Rede Globo, pelo menos, é o correspondente dos EUA que nos passa as últimas informações sobre Fidel e sobre Cuba. Podem reparar.

A mensagem publicada por Fidel no dia 19 de fevereiro foi destaque, perdão. Corrigindo: PARTE da mensagem publicada por Fidel no dia 19 de fevereiro foi destaque. Reduziram a carta em: FIDEL ANUNCIA RENÚNCIA. Na verdade o comunicado do líder cubano dizia “não aspirarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-chefe”. Mais assustador é o que os nossos criteriosos repórteres e editores fazem. A análise já não existe, as informações são superficiais e a parcialidade obedece à linha das agências de notícias norte-americanas que abastecem o jornalismo daqui.

Já se referiram a Cuba como um país órfão; já projetaram as possíveis mudanças com a sonhada (pela mídia) intervenção dos EUA; já decretaram o fim do socialismo cubano e da revolução. Aliás, Cuba é um país morto e enterrado há muito tempo, não é mesmo? Pelo menos é isso que as TV’s e os jornais dizem (‘grandes merda!’).

Para não cair no mesmo erro, vou me ater a idéias de quem realmente conhece, conviveu e estudou a realidade cubana. O sociólogo e autor do livro Cuba: um socialismo em construção, Emir Sader, disse em recente entrevista que em Cuba, para a tristeza da mídia especulativa, pouco mudará na prática após a renúncia. E ainda fez uma importante observação que poucos ditos analistas políticos fazem. “Fidel Castro já não é o dirigente político da revolução, a transição foi feita no marco da sociedade socialista, com Fidel ou sem Fidel, Cuba vai seguir, e a revolução segue em uma nova etapa em seu processo de transformação socialista”.

Dentro da mesma idéia, o historiador cubano e morador de Havana, Ariel Dacal escreveu: “para pessoas iludidas, que reduzem o sistema cubano à figura de Fidel, a renúncia pode ser significativa. Mas não entendem que a rede institucional cubana e as demandas atuais são muito mais complexas do que essa suposta subordinação total à Fidel”. Permita-me o comentário, ignorante quem ainda diz coisas do tipo “a ilha de Fidel”, “o que será de Cuba sem Fidel?”... Afinal, foram quase 50 anos no poder, pode até parecer clichê, mas o que foi construído em 50 anos não se desfaz da noite pro dia. A estrutura política de Cuba é sólida o suficiente pra resistir e continuar. Fidel nunca esteve sozinho a frente do poder, quem conhece a história de Cuba e como se deu a revolução, sabe que o apoio popular que a fez vitoriosa durante todo esse tempo.

O escritor Ignácio Ramonet atesta que os cubanos não desejam mudanças: “eles não querem perder as vantagens que foram conquistadas, a educação gratuita até a universidade, o acesso gratuito e universal à saúde, ou o fato de que há segurança e paz, num país onde a vida é calma. E estão, há um ano e meio, se acostumando com a idéia, enquanto Fidel permaneceu teoricamente como presidente”. No texto de Dacal, ele também confirma: “o impacto entre os cubanos foi somente emotivo, em Cuba não se discute o retorno ao capitalismo”. A jornalista cubana Tamara Roselló conta que “nas ruas, as pessoas estão tranqüilas”. O jornalista Jorge Garrido acrescenta que “não há barulho nem comoção em Havana. Ninguém grita, tampouco ninguém chora e nem soam as buzinas dos carros”. A indiferença do povo mostra que Cuba continuará a mesma, para a infelicidade do imperialismo ianque, como diz Fidel.

No dia 24 de fevereiro a Assembléia Nacional do Poder Popular de Cuba designou Raúl Castro como novo presidente do Conselho de Estado, cargo que ocupara desde o afastamento do irmão. Em seu discurso, Raúl disse que o comandante e chefe da revolução é um só, “Fidel é Fidel, é insubstituível”. Adiante, o novo presidente pediu permissão à Assembléia para continuar consultando Fidel em todas as decisões importantes para o país, a proposta foi aplaudida e aprovada por todos os 614 deputados.

Fidel já havia se disponibilizado ao papel proposto pelo irmão, na mesma mensagem de 19 de fevereiro ele afirmou que continuaria escrevendo. “Não me despeço de vocês. Desejo apenas lutar como um soldado das idéias. Continuarei a escrever sob o título 'Reflexões do companheiro Fidel'. Será mais uma arma do arsenal com o qual se poderá contar. Talvez ouçam minha voz. Serei cuidadoso”.
P.S. da Coluna Tô, ultimamente tenho me dedicado a estudar sobre Cuba

1.3.08

EXCLUSIVO: “Paga quem quiser”

Em janeiro desse ano, nomes e fotos de 147 prefeitos foram publicadas em oito páginas da edição 478 da revista Carta Capital. Inserida como informe publicitário, a lista se refere aos “Melhores Prefeitos de 2007”. Chefes executivos de várias cidades (e desconhecidas nacionalmente) aparecem no ranking. O prefeito Moacir Andrade, da cidade de Itambé-BA (a 540 km de Salvador), está na lista.

A responsável pela inserção da publicidade foi a agência Kriação Propaganda, que distribuiu uma carta-folder a prefeitos anunciando uma segunda inserção na revista. Os prefeitos eram “convidados” a participar da edição enviando um cheque pré-datado de 1,5 mil reais para uma caixa postal de Brasília. A carta diz: “Não deixe de mostrar nacionalmente a sua eficiência como gestor público, porque se isto é importante em qualquer tempo, imagine em ano eleitoral”.

Adriana Marques, da desconhecida agência, alega que a pesquisa foi realizada em diversas cidades e, aos prefeitos e presidentes de Câmaras que obtiveram mais de 60% de aprovação, foi oferecido uma espécie de rateamento do espaço publicitário da revista. “O que está sendo vendido é a publicidade na revista, não a pesquisa. Paga quem quiser”, explicou.
Segundo ela, os resultados totais não foram apresentados, como explica o anúncio da edição 478 da Carta Capital, porque as pesquisas não foram registradas nos tribunais eleitorais. O responsável pela enquete, segundo Adriana, foi o departamento de telemarketing da agência, sediada em Palmas (TO), com filial em Brasília (DF).

Adriana também não soube informar sobre a metodologia da pesquisa e o número de municípios em que foi realizado o levantamento. Diante das evidências apresentadas, a Carta Capital, que alegou não conhecer os "métodos" que deram origem à lista divulgada na edição 478, se recusou a publicar a segunda parte do material. Evidências para se duvidar dessa pesquisa havia, até os mais leigos percebem pela qualidade do material o amadorismo (me perdoem os amadores) e, cá entre nós, um ranking com 147 nomes... Se ao menos fosse os 150 melhores... Talvez foi a numerologia.

Mas, ainda assim, uma empresa de assessoria municipal fez questão de parabenizar o premiado prefeito de Itambé, divulgando em outdoors tal reconhecimento.

Uma empresa chamada Igreja Universal

A Igreja Universal do Reino de Deus, através dos seus fiéis ofendidos, está abrindo processos em série contra os jornais Folha de São Paulo, A Tarde, Extra e O Globo, além de produzindo grandes reportagens exibidas na Record e Record News denunciando esse abuso da liberdade de imprensa. Confira a matéria da jornalista Elvira Lobato, Folha SP de 15/12/07, um dos textos que deu origem aos processos, em que a jornalista mostra como é uma empresa disfarçada de igreja. Um verdadeiro dossiê.

Igreja Universal chega aos 30 anos com império empresarial, por Elvira Lobato

Em 30 anos de existência, completados em julho, a Igreja Universal do Reino de Deus construiu não apenas um império de radiodifusão, mas um conglomerado de empresarial em torno dela. Além das 23 emissoras de TV e 40 de rádio, o levantamento da Folha identificou 19 empresas registradas em nome de 32 membros da igreja, na maioria bispos.
Entre elas, dois jornais diários -"Hoje em Dia", de Belo Horizonte, e "Correio do Povo", de Porto Alegre- , as gráficas Ediminas e Universal, quatro empresas de participações (que são acionistas de outras empresas), uma agência de turismo, uma imobiliária, uma empresa de seguro saúde.

A Iurd tem também sua própria empresa de táxi aéreo, a Alliance Jet, de Sorocaba (SP). Segundo informação da empresa, fatura cerca de R$ 500 mil mensais, tem três aviões, um deles adquirido por US$ 28 milhões, neste ano.
Segundo a Junta Comercial de São Paulo, ela pertence a Adilson Higino da Silva, bispo auxiliar de São Paulo, e à MJC Empreendimentos e Participações, a qual, por sua vez, pertence aos bispos Darlan de Ávila, Marco Antônio Pereira e ao mesmo Adilson.

O modelo acionário da Alliance Jet se repete em quase todas as empresas ligadas à Universal. Os jornais diários foram adquiridos na negociação de compra de TVs. O "Correio do Povo" -segundo jornal em circulação do Rio Grande do Sul, com um média diária de 155 mil exemplares- fez parte do pacote que incluiu a TV Guaíba e duas rádios. O negócio foi fechado no último carnaval, por cerca de R$ 100 milhões. O jornal foi comprado em nome da TV Record de São Paulo e do Rio. São acionistas da Ediminas , que edita o jornal mineiro ""Hoje em Dia", o bispo Marcelo Silva e o ex-deputado federal e ex-bispo Carlos Rodrigues. Segundo a Folha apurou, a editora recebe R$ 0,25 por exemplar para imprimir o jornal semanal da igreja, o ""Folha Universal", que tem tiragem de 2 milhões de exemplares.

A relação entre a Igreja Universal e as empresas dos bispos é obscura. Muitas delas têm sede em endereços da Iurd. Um exemplo é a Cremo Empreendimentos, que funciona como um braço financeiro da igreja. Ela pertence à Unimetro (outra empresa da Iurd) e ao bispo João Leite. A Cremo é quem financia os bispos na compra de empresas. Por trás da Unimetro está a Cableinvest, registrada no paraíso fiscal de Jersey, no Canal da Mancha. O elo aparece nos registros da empresa na Junta Comercial de São Paulo. Uma hipótese é que os dízimos dos fieis sejam esquentados em paraísos fiscais.

Obama, um falso brilhante entre medíocres


por José Arbex Jr.

A campanha do senador Barack Obama (de Illinois), candidato a candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, fornece uma chave para a compreensão do que se passa hoje no país. Ninguém levava a sua précandidatura realmente a sério, até a realização das primárias do partido, em Iowa, no começo de janeiro, quando ele derrotou a favorita Hillary Clinton. E a “zebra” quase se repetiu, em 8 de janeiro, nas primárias de New Hampshire. Agora, ninguém mais acha absurda a hipótese de os Estados Unidos elegerem o seu primeiro presidente negro. Como explicar?

Em 2003, Obama se opôs à invasão militar do Iraque, ao contrário de Hillary e de toda a alta cúpula do Partido Democrata. Ora, a questão central da atual campanha eleitoral consiste, precisamente, no debate sobre como resolver o pesadelo que Bush criou para os Estados Unidos no Iraque. Obama é o único candidato que pode falar o que quiser a respeito, sem parecer oportunista, cínico ou, simplesmente, “espertalhão”. E ele oferece uma perspectiva clara: retirada de todas as tropas, no ritmo mais acelerado. Outra parte da resposta é dada pelo principal eixo da campanha de Obama: mudança. Ele diz abertamente que os anos Bush quebraram os Estados Unidos, dividiram a nação e atraíram o ódio do planeta. Numa crítica mordaz ao Congresso (incluindo parte dos deputados de seu próprio partido), diz que pretende deixar o Legislativo “antes que toda esperança seque dentro de mim”. Com isso, Obama dialoga diretamente com todos os que se sentem cansados das aventuras de Bush e com os que já não acreditam mais “nos políticos”.

Não por acaso, depois das primárias de Iowa, todos os pré-candidatos, incluindo os do Partido Republicano, incluíram a palavra “mudança” em seus respectivos discursos. Sua história pessoal o credencia para falar como “cidadão do mundo”: Barack (“abençoado”, em árabe) é filho de africano, é neto de muçulmanos, passou a infância na Indonésia e abriu o caminho para, de volta aos Estados Unidos, formar-se em direito. Em seu livro de memórias, conta que usou drogas na adolescência, e que era atormentado por questões raciais, agravadas por ter sido criado em um lar desfeito (seu pai abandonou sua mãe quando ele tinha 2 anos). Assim, ele personifica, de certa forma, o velho sonho da mítica América como a “terra das oportunidades”.

O seu grande trunfo reside muito mais na sua imagem de “estranho no ninho” de cobras de Washington do que em seu programa eleitoral, que não é muito diferente do apresentado pelos outros candidatos democratas. Embora seja favorável ao direito ao aborto e se oponha a uma legislação nacional proibindo casamento entre seres do mesmo sexo, Obama apóia o “endurecimento” contra os imigrantes ilegais (é favorável à nova legislação proposta por Bush) e propõe, no máximo, algumas medidas cosméticas para “disciplinar” o neoliberalismo desenfreado da era Bush. Como outros democratas, também propõe medidas para conter a emissão de carbono, favorece pesquisas com células-tronco e uma reforma tributária que atenue um pouco o sofrimento dos mais pobres. E aproveita para estocar Bill Clinton. O recado é claro: Bill e Hillary são farinha do mesmo saco conservador que abriga Bush e os demais. Com esse discurso, Obama atrai o apoio de jovens, intelectuais e de atores bem conhecidos.

Se a palavra “mudança” soa falsa nos lábios dos democratas, parece uma piada quando pronunciada pelos republicanos. Sem alternativas políticas reais a oferecer ao partido e ao país, alguns de seus pré-candidatos tendem a radicalizar a plataforma religiosa, tentando captar as simpatias dos evangélicos fundamentalistas.

A não ser pela “novidade” representada por Obama – mais de aparência do que de substância–, o quadro eleitoral dos Estados Unidos constitui uma monótona mediocridade. Mediocridade perigosa, numa situação mundial seriamente ameaçada por crescentes tensões regionais, pelo desastre ambiental e por sinais de tormentas econômicas. Não há nenhum sinal de grandes “mudanças”, como promete Obama. E talvez esteja aí o dado mais importante: quando a opinião pública estadunidense se convencer de que terá mais do mesmo, é possível que a luta de classes se faça novamente visível nos Estados Unidos.

José Arbex Jr. é jornalista.

Artigo publicado na revista Caros Amigos de Janeiro de 2008