8.4.07

Precisa-se


A mesa ainda não estava posta quando Glauber deu um último trago e descartou o cigarro no pátio soltando a fumaça na sala onde estavam Jorge, Castro e Gregório. O encontro por acaso estava programado para aquela noite.

Enquanto as mulheres ocupavam a cozinha, eles, às gargalhadas, contavam histórias jamais imaginadas dentro de suas obras, mas tão reais quanto à loucura particular de cada um, quanto às palavras de cada língua afiada (que o diga o Boca de Inferno).

Aquele encontro na dimensão onde ainda eles se encontram era fruto de um certo desconforto cultural causado lá em cima.

Glauber disse que jamais imaginaria ouvir na música brasileira tamanha futilidade e ver no cinema os antigos clichês.

Jorge, por sua vez, reclamava pelos romances nacionais deixados às traças nas livrarias.

Já Gregório não entendia o motivo do teatro está restrito aos que pagam para rir de si próprios, e só.

E Castro não suporta mais ver em sua praça, todo ano, a folia momesca dizendo que está tudo muito bem e a poesia sabe-se lá de quem é...

Eles não se conformam em ser apenas do passado, revistos quando lembram das memórias esquecidas, estão abalados por não ter influenciado o suficiente para deixar a herança do inconformismo.

Com as mãos dadas de olhos fechados e com a louca sanidade sob controle, fizeram juntos, numa só frase, ao redor da mesa farta, uma oração:

- Pai, não precisava tanto.

E é verdade, não precisava mesmo! Somos nós que precisamos. Precisamos de Glauber, de Jorge, de Gregório e de Castro. Precisamos de todos eles de volta às nossas mesas, às nossas mentes e de volta à nossa arte.

Um comentário:

Rafael Carvalho disse...

Excelente texto Chuchu. Com certeza as manifestações artísticas precisam se renovar e se utilizar de sua capacidade de sacudir as pessoas, despertar. Falta também uma maior valorização de nossa parte.
É isso, demorei pra comentar, mas saiu. Valeu!